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Me envolvi com a humanização do parto há uns 4 ou 5 anos quando descobri que havia passado por violência obstétrica. Tinha sido nascido meu primeiro filho Rafael através de uma cesariana indesejada e desnecessária que me transformou em uma militante ferrenha da causa. (Você pode ler o relato AQUI)

A partir daí, me informei, busquei apoio e  pari há quase 3 anos o Joaquim, meu segundo filho,  num parto natural planejado para acontecer em casa, mas que terminou no hospital após quase 70 horas de TP no domicilio.

A minha experiência de parir como pari  me trouxe, de uma forma muito profunda, a compreensão da importância, para o sucesso do parto,  do auto-conhecimento, da comunicação, do planejamento e principalmente do alinhamento entre a  parturiente e as pessoas co-participantes do processo de parir.

Após muito conversar,  refletir e processar o que aconteceu (e principalmente como aconteceu) cheguei a alguns apontamentos que acredito que possam ajudar  gestantes que planejem também parir seus filhos em casa.

Não é sobre culpa, arrependimento ou lamentação. Nem tampouco sobre responsabilizar quem quer que seja. É sobre tirar a venda dos olhos. E,  quem sabe,  poder fazer melhor da próxima vez.

(Faça o que eu falo, não faça o que eu fiz.)

 

  1. Pergunte-se porque quer ter um parto domiciliar.

É porque tem medo de hospital? É para evitar violência obstétrica? É para ter privacidade? É porque você acha bonito? É para fazer igual à sua melhor amiga? Conheça suas motivações. E certifique-se de que as pessoas que te auxiliarão nisso também as conheçam e te apoiem com base na compreensão desses desejos. Eu quis ter meu segundo filho em casa para não precisar me separar do meu filho mais velho durante o parto (você pode ler meu relato de violência obstétrica AQUI), mas eu não tinha nenhuma restrição quanto a transferência para hospital  se necessária, por exemplo. E tinha um excelente plano B com médicos de back up. Muitas mulheres escolhem parir em casa porque não desejam de maneira nenhuma ir para o hospital. E ok, é a escolha delas! O que não podemos é achar que todo mundo tem que ser igual, ter as mesmas motivações, medos e coragens.  Reflita sobre o seu perfil. Não existe perfil de mulher perfeita para parto domiciliar (ao contrário de muito do que se diz por aí)…  Mas  existem mulheres com histórias, necessidades e condições específicas  (e com  uma maior ou menor consciência de tudo isso) e equipes que  acolhem e assistem de forma adequada ou não  essas  mulheres.  Não se compare a ninguém e não faça suas escolhas ou deixe que as façam por você com base no perfil de outras pessoas.  Passei por uma transferência desnecessariamente tardia que atribuo, entre outras coisas, à falta de entendimento, por parte da equipe, das minhas motivações para o parto em casa. Diferentemente do que é muito valorizado nesse meio, eu não estava ali para o tudo ou nada. Segurança era um  fator muito importante pra mim e sair viva e com bebe saudável era prioritário e estava acima de qualquer outra coisa. Hoje, com a informação que tenho, gostaria de ter sido transferida antes. Fundamental conseguir comunicar com efetividade as suas motivações, entende?

 

  1. Informe-se. Informe-se muito. Informe-se um pouco mais. Para poder se tornar a protagonista das decisões relativas ao seu parto.

Parto é simples e complexo. Ele pode tanto transcorrer de forma muito tranquila e feliz,  como ter desfechos absolutamente inesperados. Pode ser muito rápido ou muito demorado.  E tem mulher que pari cada filho de um jeito. Muitas mulheres não entendem direito o que houve no próprio parto, especialmente depois de ouvirem, de diferentes profissionais de assistência, explicações e justificativas bastante conflitantes para as mesmas questões. Eu mesma, ao explorar opiniões profissionais para entender o meu processo de parto,  ouvi desde “você atrapalhou seu parto por ser controladora” e “tinha muita gente no seu parto” até “dilatação regride quando a mulher não se sente segura no ambiente de parto”  e  “ o bebê não descia porque a pele da bolsa estava grudada na cabeça dele” …  Fiquei  3 dias em trabalho de parto em casa e depois fui descobrir que não deveria, para não correr alto risco, ter ficado tanto tempo lá nas condições em que eu me encontrava. Mesmo tendo me informado muito mais do que a media das mulheres, eu não sabia 10% do que precisava para ter sido mais ativa nas decisões que foram sendo tomadas. Eu realmente achava que estava tudo bem… E não estava.
Poderia ter me informado MAIS.
Quer dizer que é preciso ser expert em parto para parir? Quer dizer que tem que virar praticamente uma obstetriz? Não. Quer dizer que você pode escolher entre isso ou contratar uma equipe na qual você confie 200% para tomar todas as decisões por você, o que você prefere?

 

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  1. Tenha certeza de que conhece a fundo e concorda com o estilo de trabalho e protocolo de atendimento da equipe que irá te assistir.

Converse sobre intervenções e não-intervenções. Pergunte. Esclareça. Você pode elaborar uma lista de dúvidas para levar às consultas, pode conversar com pessoas que já foram assistidas por eles, pode perguntar nos grupos de apoio ou nas comunidades da internet. Pode solicitar o protocolo para consulta até, viu? É importante que você contrate uma equipe que combine com aquilo que você deseja para o seu parto.  “Ué, mas não é tudo igual, humanizado?” Não. As equipes diferem muito umas das outras. Existem equipes bem profissionais e outras engatinhando na profissionalização. Há equipes experientes e gente que começou ontem. Equipes com protocolo de atendimento  e equipes sem. Profissional que corre mais risco e profissional que corre menos risco. Você prefere o pão mais branquinho ou mais moreninho? É tudo pão, né? É sim, mas eu não gosto de pão queimado, por exemplo . Minha equipe tinha um nível de exposição ao risco que era muito diferente do que eu considerava e considero como confortável para mim e existem, ao contrário, pessoas que querem correr riscos que a equipe não está disposta a correr. Felizmente, há mercado e serviço para todos  agora.   E Sim, é um serviço… A menos que você não vá pagar por ele.

 

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  1. Tenha certeza de que você sabe qual  é a dinâmica de um parto domiciliar. Xixi no chão da sala e  louça na pia podem  fazer parte, por exemplo.

E alguém pode ter de se preocupar em dar comida para o gato e para todos da equipe.  Converse com  pessoas que pariram em casa  e ouça os relatos. Não se baseie em vídeos ou fotos da internet. Eles são lindos e mostram a parte poética do parto, mas estão longe de mostrar como é que as coisas realmente acontecem lá na hora.  Minha casa ficou bem mais bagunçada do que costumo tolerar em meu dia-a-dia e  fiquei tempo demais preocupada com o bem estar  e a fome de todos. Nada a ver ter de se ocupar de providencias lá na hora, viu? Também não rola parir com sentimento de ninho revirado ou querendo botar ordem nas coisas. Voce pode se preparar melhor e simplesmente combinar algumas coisas sobre arrumação, comida, tv…

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  1. Perca tempo pensando em detalhes que são importantes para você. Sutilezas. E faça com que as pessoas que vão estar contigo saibam disto antes do dia do parto.

Gosto de ambientes claros e luz. Detesto banho morno. Não gosto que me sirvam. Tenho paúra de gente que não é íntima me fazendo carinho. Não como no banheiro. E aprecio solidão. Quem me conhece intimamente está careca de saber isso. Mas todas as outras pessoas do planeta não.  Você pode ser a pessoa mais assertiva do mundo e ainda assim não conseguir abrir a boca para comunicar essas preferencias durante o trabalho de parto. Pode faltar abertura, pode faltar paciência, pode faltar até energia pra isso. Sua casa vai estar cheia de gente querendo te ajudar de todas as formas… E poderá ser mais efetivo, se elas souberem a melhor forma de agir com você.

 

  1. Planeje. Planeje tudo. De comida a Plano B, C e D.

Parto é planejável. Imprevisível, mas absolutamente planejável.

Parto domiciliar pode durar 2 ou  70 horas. O meu durou 72. E sobrou estresse por causa disso. Porque faltou comida, a casa ficou suja,  as pessoas ficaram exaustas.  Algumas pessoas da equipe de assistencia não estavam tolerando a equipe de filmagem. Na hora de ir para o hospital em transferência, tudo aconteceu exatamente ao contrário do que havia sido combinado. Esqueci mala. Não sabia onde enfiar meu filho. Tudo absolutamente evitável. Ainda não sei se o parto melou porque durou 70 horas ou se durou 70 horas porque melou. Então planeje. Tim tim por tim tim. Como se a porra do parto fosse durar 7 dias e todo improvável pudesse acontecer. E faça todo mundo assinar embaixo do que for decidido. Quer dizer que tudo sairá de acordo com o script? Quer dizer que não se pode mudar de idéia durante o percurso? Sim e Não. Não, você não vai ter controle total sobre o que vai acontecer. E sim, você pode controlar como quer que as coisas sejam conduzidas. Com um bom planejamento, terão sido pensadas soluções para a maior parte das situações e intercorrências que possam vir a acontecer e, caso seja necessária a tomada de alguma decisão fora do combinado, o plano e  quem decidiu pelo plano poderão e deverão ser consultados. As chances de tudo ser leve serão maiores se você entrar no parto tranquila de que não precisará pensar em mais nada além de suportar a dor e receber o seu bebê.

 

  1. Faça plano de parto por escrito para ser discutido e entregue a cada um dos membros da equipe de assistência e tenha certeza de que todos estarão alinhados e afinados entre si com o objetivo de te ajudar.

Sabe isso tudo que eu falei aí em cima? Planejamento, risco, comida, plano B, banho morno e xixi? Coloque tudo no papel. Discuta com a equipe, refaça, discuta novamente e chegue a um documento final que todos entendam e concordem em seguir. Isso garantirá que todos tenham entendido  o que você precisa, que todos possam discordar ou sugerir alterações, que todos possam colocar suas limitações e preferencias também. É imprescindível que seja por escrito, que se chegue a um documento final que todos possam ter em mãos para reler assim que você entrar em trabalho de parto. Cada gestante tem necessidades e condições especificas e cada profissional tem também seus protocolos e preferencias. O plano de parto é uma oportunidade para ajustar todas essas variantes durante o pre-natal (e não na hora do parto) e aumentar assim as chances de um desfecho muito  próximo do idealizado. Meu parto era pra ser lindo, sabe? Familiar, seguro e festivo. Eu tinha pensado em tudo e tinha conversado sobre muitas coisas com a minha equipe – com as parteiras, com a doula e com a minha médica. Estava  tudo bonitinho na minha cabeça e supostamente entendido por todos. Mas não escrevi plano de parto dando margem a subentendidos de toda ordem na hora P. Sabe como foi meu parto?  Meu bebê lindo poderia ter ido pro beleléo.  Tive uma infecção pós-parto, absolutamente evitável, que me custou 10 dias de febre bem no início da amamentação. Não passei por nenhuma intervenção cirúrgica ou química e o bebê nasceu ótimo, mas no centro obstétrico longe do pai e do irmão. Ganhei uma laceração máster e  fiquei sem vídeo do nascimento. Muito se fala sobre como o parto real é diferente do parto ideal. E é obvio que sempre é. Mas é preciso propagar também a  noção de que muitos desfechos ruins ( a maior parte deles acredito) poderiam ser evitáveis com um bom  plano de parto compartilhado com a equipe. Tive sorte. E Deus ajudou. Mas se pudesse  te dar um único conselho ele seria: Deixe nas mãos de Deus, mas não deixe de fazer plano de parto!

 

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Bom, depois deste parto, entendi a escrita do Plano de Parto como um processo de aquisição de informação sobre nascimento e sobre si mesmo.

Em 2010 desenvolvi um processo de coaching onde ajudo gestantes a identificarem suas necessidades e a planejarem seus partos para que aconteçam o mais próximo quanto possível do que elas desejam. E passei também a treinar doulas com algumas ferramentas de coaching para que elas consigam ajudar as mulheres  de maneira mais objetiva a construirem os seus planos de parto dando conta de todos os fatores envolvidos na sua elaboração .  Ambos os trabalhos foram desenvolvidos com o objetivo de ajudar as mulheres e planejarem seus partos num processo de organização mental durante a gestação  – fase em que via de regra – não queremos ter de racionalizar nada.

Sinto que meu parto foi como foi também para que este trabalho fosse desenvolvido.
Continuo com os atendimentos e treinamentos, mas sinto agora uma necessidade de falar para mais mulheres. E quem sabe poder ajudar nisso em uma escala maior.

E espero estar ajudando você.
(coloque suas dúvidas no comentários)

Te desejo o melhor parto que você puder ter!
Nada menos que isso.

 

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Elba Oliveira é mãe do Rafael e do Joaquim, nas horas vagas trabalha com o que gosta: Coaching, Maternagem e Empreendedorismo. Gosta do novo, do feito, da força e da brisa que sente no pico mais alto de cada montanha. Leva os bacuris onde vai.

Elba Oliveira

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