Quando eu saí da maternidade, levei comigo umas receitas de remédios para cólicas de bebês, dores para mim, e, pasmem: uma receita de leite NAN. Sim, prescreveram isso em receita, “caso” o bebê não quisesse mamar em mim, ou eu não quisesse dar o peito por algum motivo. Meu marido, maluco, comprou o tal leite e deixei de enfeite ali no armário.

Um dia, depois de 100 dias sem dormir (minha bebê mamava a cada 2 horas, inclusive a noite pedia peito também muitas vezes), pedi a ele pelo amor de deus pra me deixar quieta umas horinhas e dar o tal leite pra ela, só UMA vez,  pra eu ter um intervalo de sono de 4 horas. Era meu único desejo, e não pensei em mais nada. Ele tentou vários dias. Ela cuspia tudo, tinha horror ao tal NAN.

Trocamos o leite, trocamos de novo. E aí, um belo dia, me vi pulando de feliz porque ela tinha pego 10ml de Similac, um dos leites artificiais mais vendidos também. Um pouco de sono e sossego pra mim, quem sabe? Ledo engano… minha bebê nunca tinha vomitado a valer, e neste dia passei a madrugada com ela no colo, vomitando e chorando até de manhã.

Demorei outros meses pra tentar dar de novo o tal LA (leite artificial). Quando ela já estava com uns 6 meses, e perto de ir pra escolinha, peguei o pózinho branco de novo. Agora vai, pensei. Já comia às vezes uma papinha e tomava suco também. Ia aceitar, o tal LA. Ela tomou. E ficou assim, depois de 5 minutos:

Neste dia foi a primeira vez que liguei pra pediatra perguntando que diabos estava acontecendo quando minha filha tomava leite. Esta reação não é só cutânea. Internamente faz uma confusão. A pediatra, além de me receitar ADES (sim, este é um capítulo a parte, super absurdo pra crianças de 6 meses e ainda por cima, alérgicas), ela me disse que a filhota tinha alergia ao leite. E só.

Demorei mais 3 meses pra entender que não era assim, tão simples. A reação não era somente cutânea. O contato com traços do alimentos que ela é alérgica causa reações gástricas, respiratórias (que são as piores) e dermatológicas. Meu próprio leite, que ela tanto gostava, continha traços de leite de vaca da minha alimentação, o que eu demorei meses pra saber que fazia mal pra ela também.

Depois de cinco pneumonias em 6 meses, de trocar de pediatra 5 vezes, ter ido a 3 pneumologistas, 3 alergistas, 1 imunologista, 1 nutricionista, muitas comunidades no facebook, ter dado muitos remédios diferentes, e ouvido muita, mas muita merda sobre o problema dela, cá estamos, engatinhando ainda na compreensão do complexo mundo da alergia alimentar. Helena foi diagnosticada como alérgica múltipla (Ige mediada e celular, ou seja, tipo misto – já vou explicar o que é) e asma, tendo vários problemas diferentes, todos derivados da AA. Ou seja, bem-vindos todos nós ao mundo dos alérgicos. Calma, não é o fim do mundo. Mas como passamos por esta verdadeira SAGA, quero compartilhar com vocês o que aprendemos pra, quem sabe, encurtar o caminho de outras mães.

O que ela tem é a chamada “Marcha da Alergia”: você entra em contato com o alérgeno, o corpo tem algumas reações contra o “corpo estranho” como entrar em crise de asma (nosso caso aqui), o que causa tosse, sibilo no pulmão, acumula catarro e evolui pra pneumonia, ou inflamar órgãos (aqui o esôfago inflama), o que causa refluxo, o que causa sinosite, otite, e pneumonia de novo. Ou seja, até saber AO QUE temos alergias, ficamos à mercê dos corticóides, que não parecem ter muito resultado não. Eles não evitam as crises, já que o alérgeno ainda está presente diariamente, ali. Desculpe se fui imprecisa, novamente, não sou especialista, só curiosa, e recomendo a leitura atenta dos sites indicados ali no final.

Alergia alimentar é cada dia mais comum. Nosso estilo de vida moderno, comida industrializada, etc, parece estar deixando o mundo mais alérgico. Hoje, estima-se que 6% das crianças possuam algum tipo de AA, sendo mais alto este índice em países mais desenvolvidos (será que são tão desenvolvidos, né?). Uma das coisas que dispara a alergia ao leite sabe o que é? O famoso “copinho de NAN” que dão no hospital (em alguns, é padrão dar) pros bebês não encherem o saco se acalmarem enquanto as mães descansam da sua cesárea ( quase 90% de cesáreas em hospitais daqui) e esperam o próprio leite descer. Outro dia fui visitar uma amiga no hospital que havia tido bebê, e quase tive um troço ao passar pelo berçário e dar de cara com uma enfermeira e seu copinho branco, dando conta gotas de NAN na boca de um RN. Tive vontade bater no vidro pra falar NÃAAAAAOOOOOO e de chorar de raiva também.

Os alérgenos mais comuns são: o leite de vaca, o ovo, o trigo, o milho, o amendoim, a soja, os peixes e os frutos do mar. Fora amendoim e frutos do mar, as outras alergias prevalecem na infância, e as crianças em sua grande maioria estão curadas quando crescem. A idade varia. Algumas melhoram com 2, 3 anos…outras com 10. Depende do grau da alergia e de sua forma.

Os exames nem sempre acusam as alergias. Quando as crianças são muito novas, temos falsos negativos especialmente nos exames do tipo RAST. Helena já fez 3 vezes, e só começou a positivar agora, com 1 ano e 3 meses.

Existem basicamente 3 tipos de AA: Ige mediada: que provoca a formação de anticorpos específicos da classe IgE, Mista, e Celular. Minha filhota tem a do tipo mista. Recomendo a leitura do link do Instituto Girassol para aprofundamento no assunto.

A reação alérgica não é intolerância. A criança que tem, por exemplo, alergia ao ovo, não pode consumir ovo. Ela tem reações diversas, variando de caso pra caso, que podem inclusive levar a morte. Aqui tem uma reportagem muito boa da TV Record:

No vídeo, falam de alergia ao beijo de quem tomou sorvete. Sim, aqui é igualzinho. Às vezes, esqueço. Helena fica toda rosa com um beijo de leite da mãe sem noção. Todos os amigos e parentes sabem que não podem dar nada que contenha leite ou traços a ela, e agora ovos e soja também. Complicado? Complicado é ficar internado. É morrer. Não lavar as mãos ou cozinhar.

Meu deus, mas o que posso fazer para prevenir o surgimento ou aparecimento de AA nos meus filhos (ou irmãos de alérgicos, como seria meu caso)??? Somente UMA coisa mostrou efeito até agora, segundo os médicos.

” O aleitamento materno exclusivo, sem a introdução de leite de vaca, de fórmulas infantis à base de leite de vaca e de alimentos complementares, até os seis meses tem sido ressaltado como eficaz na prevenção do aparecimento de sintomas alérgicos.”

 

Pra relaxar, rir um pouco, e alertar as mães: SESSÃO DE PIADAS SOBRE alergias alimentares E MÉDICOS

(adivinha o que um dos pneumologistas da minha filhota me disse, ela no meio de uma baita crise respiratória por alergia ao leite de vaca, de conhecimento dele, assim que a conheceu com 10 meses???? - ah mãe, faz ela largar este peito aí, a menina tá grande, não precisa mais né.)

“Em crianças com alto risco para atopia, o aleitamento materno deve ser ainda mais estimulado e prolongado (até dois anos ou mais).” 

(adivinha o que uma pediatra me disse, no meio de uma baita crise respiratória por alergia ao leite de vaca, de conhecimento dela, ao perguntar o que devia dar pra ela então? – ah mãe, melhor dar este leite aqui, ó. e me deu uma fórmula a base de …soro de leite.)

Não confundam INTOLERÂNCIA AO LEITE COM ALERGIA AO LEITE, doutoras.

(adivinha o que uma pediatra que tratava dela na quarta pneumonia, causada por reações derivadas da alergia ao leite de vaca, de conhecimento dela? - ah mãe, você ainda não dá danoninho pra ela? pois devia. não vai deixar a menina sem leite o resto da vida, né? mas pediatra, ela está há 30 dias em dieta de exclusão, está melhor! – ah, mas uma hora tem que reintroduzir o leite, né, mãe?)

Sim, depois de 6 meses a um ano de exclusão inclusive de traços, no caso de crianças Ige mediadas, como minha filha. Isso depois de muita reavaliação. E acompanhamento médico. E danoninho, doutora? Pirou?

(adivinha o que uma pediatra disse a uma amiga, mãe de filho celíaco, altamente intolerante ao glúten, já que ele não ganhava peso – claro, é celíaco e estava com dieta equivocada, mãe desesperada já? - ah mãe, tá magrinho né, vou receitar Sustagem pra ele...)

Sustagem é uma BOMBA de glúten e o menino foi…internado.

O que quero dizer com tudo isso, no fim, é para que a gente possa se unir e ficar muito mais informado sobre as alergias alimentares, saber que não são brincadeira, nem frescura de mãe neurótica. E que médicos não sabem tudo, e devem ter a humildade necessária para nos indicar onde pedir ajuda, mesmo que para isso tenham que nos levar para longe deles.

Hoje, adoro nossa médica, que sabe muito de AA, e ainda é uma pesquisadora no assunto. Foi um golpe de sorte, mas também de informação acumulada. Estamos saindo da quinta pneumonia, ainda com sequelas (muita tosse) e uma dieta ainda mais estrita: sem nada, nem traços, de ovo, leite e soja. Um dia, vamos todos enfiar brigadeiros coloridos na boca e dar muita risada desta época que a mamãe cozinhava mandioca e misturava com leite de côco e chocolate sem lactose, pra fazer uma festinha pra você.

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Sites recomendados para informação de alto nível:

http://www.girassolinstituto.org.br

http://www.sban.com.br/

http://www.sbnpe.com.br/

http://www.aaaai.org/

http://www.foodallergy.org/

http://www.alergiaaoleitedevaca.com.br/

Mãe, blogueira e socióloga, trabalha com comunicação e redes sociais, militante pela humanização do parto e nascimento. Nem só de leite vive a mãe - www.caroldarcie.tumblr.com

Carolina

3 Comentários

  • Responder
    Thais Martinez Gomes
    7 de agosto de 2014

    Carol, quem é a médica que levou sua filha? Preciso levar o meu também pois ele apareceu com as mesmas manchas e eu inocente continuo a dar sustagem. Agora o estágio está pior, pois logo que ele toma a mamadeira de sustagem, ele já começa a se coçar e se coçar com força no rosto!!! Socorro!

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