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O processo que uma mulher atravessa para parir, é um processo imprevisível, de mistura de sentimentos, hormônios, medos, angustias, expectativas. Um “balacobaco” indescritível. Pensamentos que vem e vão, misturados ao suor, lágrimas, sorrisos, fluidos, gemidos…. e quando, de repente, o bebê coroa e essa mulher pode tocar seu cabelinho, apontando ali timidamente, entre os pequenos lábios -  região tão preservada, escondida, velada, camuflada -  um misto de prazer, medo, pressa, incredulidade a assombra…

Incrivelmente aquele processo, que até poucos minutos parecia interminável, está acabando. E agora? Uma mudança tão anunciada durante 9 meses está prestes a se concretizar. Serão minutos? Segundos? Um filme passa na cabeça de toda mulher prestes a parir, como que se buscassem em qual lugar to tempo-espaço iniciou essa mudança social.  Foi com o nascimento de um irmão? Com o cuidar da primeira boneca? Quando conheceu seu companheiro?

Aquela que não tinha filhos ainda, em uma pequena fração desconhecida de tempo, passará a ser mãe. Aquela que já tinha filho (s) passará a ser “mãe de dois”, “mãe de três”… Seu tempo, seu amor, sua dedicação terá que se multiplicar para então dividir, com mais um ser. Que ainda (pasmem) não é amado visceralmente. É imaginariamente amado. Porque essa idéia de que a mulher ama seu bebê desde o ventre, é uma construção social também. Muitas de nós, senão todas, sentimos uma estranheza ao olhar para nosso bebê ali, recém nascido e tão diferente do bebê imaginariamente gestado. Um turbilhão de pensamentos que não podem, jamais, serem individualizados emaranha-se na mente dessa mulher.  E todo aquele processo atravessado [o parto], tão culturalmente banalizado, estigmatizado, evitado, está prestes a terminar, e concretizar essa mudança marcante.

E onde se perdeu, se escondeu, ou será que em latente estado está, esse evento social onde a mulher era a protagonista desse processo de completude do seu ciclo sexual? Um processo onde a mulher ficava rodeada de mulheres de sua confiança e convívio íntimo que a assistiam, apoiavam, encorajavam? Onde ficou, perdido no tempo, esse processo que,  findado, promovia transformações profundas nessa mulher?

Esse processo de transformação e empoderamento feminino era necessário para que as mulheres tão submissas e tão secundárias na sociedade daquela época, pudessem sobreviver a tamanhas atrocidades, violências, humilhação ao qual eram submetidas. Dar um filho ao seu marido era o ápice de sua história como ser individual,  e quando isso não acontecia, era estigmatizada.

Será coincidência que, a partir do momento que as mulheres começaram a reivindicar direitos democráticos como o voto, divórcio, educação e trabalho (no fim do século 18), o parto, que era um evento social, familiar, tipicamente feminino, e portanto um mistério para a grande maioria dos homens, passou para os hospitais sob a assistência de médicos-parteiros? Uma mudança radical,  no significado do parir e nascer, sob o discurso da segurança e da diminuição dos riscos.  “A entrada dos médicos-parteiros nesta prática inaugurou, não só o esquadrinhamento do corpo feminino, como a produção de um saber anatômico e fisiológico da mulher, a partir do olhar masculino” (Brenes, 1991).

Essa nova visão da assistência ao parto, sob um cuidado absolutamente masculino, foi tão rapidamente instalada, que absurdamente quando a primeira mulher diplomou-se no ensino oficial de Obstetrícia (Madame Durocher em 1834) e foi também a primeira a ser recebida como membro titular na Academia Imperial de Medicina, viu-se obrigada a vertir-se como homem, pois como ela mesma explicava era uma profissão “masculina”.

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a grande maioria dos partos já eram hospitalares, assistidos por médicos obstetras (em geral homens) e começa a grande epidemia de cesáreas.

Ehrenreich & English, em 1973, afirmaram que a medicina trata a gravidez e a menopausa como doença, transforma a menstruação   em distúrbio crônico e o parto em um evento cirúrgico.

Então, paralelamente ao crescimento do movimento feminista, acontece a hospitalização do parto e o grande boom de cesáreas: Prendam-nas! Anestesiem-nas! Cortem-lhes as vaginas e as barrigas…. elas perderão a força… Ou seja, todos os processos fisiológicos relacionados ao corpo feminino, eram um problema a ser resolvido por eles: médicos homens.  Afinal o movimento feminista estava ganhando força, as feministas haviam embarcado na luta contra violência às mulheres, começaram a difundir a idéia de que os gêneros apesar de diferentes biologicamente, eram iguais.  Inconscientemente [será?] era necessário deter este movimento.

Assim como a lendária história de Sansão, quando cortaram-lhe o cabelo numa disputa de poder,  passaram a cortar nossas vaginas e barrigas. Nos amarrar, nos anestesiar, nos medicalizar.  E a violência contra a mulher, ganhou mais uma versão: a violência obstétrica. Todos os processos fisiologicamente femininos eram uma ameaça ao poder masculino já instalado em nossa sociedade.

Fizeram-nos acreditar que precisávamos deles, os homens, para parir. Para cuidar da nossa menstruação, da nossa menopausa, para gestar! Nos incutiram a idéia de que “sofremos” processos muito, muito perigosos, que requerem muito cuidado. Processos de alto risco, que se desenrolam em um corpo tão frágil e delicado: o corpo da mulher. E, em questão de décadas, esquecemos e passamos a desconhecer a nossa força. Mergulhamos num ritmo frenético de trabalho, carreira, consumismo para mascarar todos esses processos. Acreditamos que seria melhor interromper a menstruação, adiar a gestação e deixar que extraíssem nossos filhos através de uma cirurgia asséptica, protagonizada por eles. Os médicos.

Porém, nós mulheres, não podemos ignorar por muito mais tempo todo esse jogo de poder que se desenrola sutilmente sob nossos olhos. E é por isso, que convido vocês a frequentarem nossa casa, a casa das Mulheres Empoderadas, na Vila Mamífera. Um lugar, onde as MULHERES CONHECEM A PRÓPRIA FORÇA.

 

giseleGisele Leal é Bióloga, Doula, Orientadora Peri-natal, ativista pela humanização do parto, mãe de 3 e gestando o bb4. Escreve no blog Mulheres Empoderadas

Acesse o link para o texto publicado originalmente no Vila Mamífera

 

 

 

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Comentários

comentários

3 Comentários

  • Responder
    14 de maio de 2013

    Gisele Leal, você pode me enviar seu email?
    O meu é thais_tami@hotmail.com.

  • Responder
    14 de maio de 2013
  • Responder
    mundodepalavras
    14 de maio de 2013

    Muito interessante o texto e o ponto de vista da autora. Realmente, nós, mulheres muitas vezes não sabemos o poder que temos. Mesmo sabedoras que somos portadoras do supremo DOM de ser mãe, que somos livres para fazer as nossas próprias escolhas e lutar pelos nossos direitos. bjs Camila Vaz

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