Todo mundo sabe que se conselho fosse bom a gente não dava com TANTA generosidade e falta de parcimônia. Observe hoje, só hoje, como são as conversas. Se quiser ser mais específico, observe as conversas em torno de uma mãe. Todos somos conselheiros, uns mais compulsivos e “preocupados”, mas todos nós nos comportamos o tempo todo como se pudéssemos solucionar facilmente todos os problemas DOS OUTROS, e pior, como se eles, os outros, sempre quisessem e precisassem das nossas soluções mágicas para toda e qualquer coisa. Nos comportamos como se os problemas alheios fossem também nossos.

 Nos falta sensibilidade para perceber que o outro às vezes, na maioria das vezes por sinal, não precisa ou não quer conselho algum, nem quando parece desesperado ou está despejando queixas em cima da gente. Observe. Quase sempre, o outro (ou a gente) só quer presença, apoio, ouvidos, vez ou outra ombro e QUASE NUNCA conselhos, soluções ou ajuda. Procurar solucionar problemas dos outros, que muitas vezes só a gente está vendo, pode ser pura perda de tempo e acabar em desgaste e amolação. Cada um vê a vida e as situações de um jeito e há pessoas que não enxergam em todas as situações problemas a serem solucionados (ainda que estejam cercadas por eles). Aconselhamos demais, e será que a nossa preocupação em ajudar de fato é proporcional à quantidade de pitacos que distribuímos? Será que é mesmo pura vontade de ajudar? Talvez seja parte de termos necessidade de provar (pra quem mesmo?) que dominamos algo. Pode ser necessidade de auto-afirmação. Pode ser muita coisa, só não pode ser sempre vontade de ajudar, não é possível que seja só isso. Ou é?

 Eu, quando meu filho nasceu, rejeitei todos os conselhos que recebi. Todos. Eu estava contente e me virando bem. Eu não via problema no modo como o estava criando. Os outros viam, o tempo todo, e adivinha? Me davam conselhos, muitos conselhos. Quanto mais eu recebia, mais rejeitava. E quanto mais rejeitava, mais recebia. Era tanto que comecei a rejeitar por princípio, por birra, só de raiva. Tinha conselho que era precioso, mas que eu deixei de ouvir porque já não podia mais com tanto conselho, observação, crítica, dica, palpite, pitaco, segredinho, receitinha… Tapei os ouvidos. Uma pena. Sei que perdi dicas valiosas e conversas incríveis com pessoas de quem eu realmente gosto muito. Fazer o quê?

 Não deu pra não ser como foi. Não deu pra não surtar. Eu não me preparei para não me afetar com todos ao meu redor tentando me dizer o que fazer. Não me preparei para lidar com essa necessidade, que quase todos nós seres humanos temos (exceto os monges tibetanos?), de não perder sequer uma oportunidade de discorrer sobre o que achamos que dominamos mesmo que isso as vezes custe a irritação ou a rejeição do outro. Eu me irritei, me tranquei em casa com o bebê pra não ter que escutar nada além do que eu precisava mesmo ouvir: o choro do bebê. Não podia mais com uma mamãezinha sequer a me dizer o que fazer. Me tirava do sério ser sempre colocada na posição de aprendiz, neófita, caloura, tola completa. Surtei mandei todo mundo embora. Poderia ter sido diferente? Acho que sim. Mas já foi. Fica pra próxima. TALVEZ um dia eu consiga fazer diferente. Uma coisa eu já decidi, no mínimo vou me irritar menos.

 Some-se a tudo isso o fato de que eu, com algumas coisas, sou daquelas que não gosta de ganhar a receita pronta. Com filho eu queria descobrir sozinha como se fazia. Queria VIVER todas as coisas. Eu queria dar uma de gata, sabe? Me entocar, lamber a cria (como achasse que devesse lamber) e só. E de preferência sem ninguém por perto “inspecionando”, corrigindo, me vendo errar, querendo pôr a mão, querendo me mostrar “como é que se faz”. Eu quis ser gata, estar prenha, poder parir e amamentar o filhote fosse como fosse. Pelo menos por uns meses ansiava por uma licença da minha humanidade, da minha sociabilidade, do conhecimento, da técnica, da manha, DO MUNDO. Queria que fosse como tivesse que ser, eu e o bebê. Gata se esconde pra parir, eu também queria me esconder . Foi uma reação que a obstetra chamou de “inteligência dos hormônios” a me ajudar a me concentrar no bebê. Achei legal a história que a obstetra contou, será que inventou só pra não me contrariar??? Vai saber…

 Já a psicóloga achou que era outra coisa (depressão pós-parto?). Nem tanto. Bom, até hoje não sei o que foi aquela “coisa” que me deu. Acho que as duas, a psicóloga e a obstetra, estavam certas. Todas as mudanças (hormonais, psíquicas e sociais) pelas quais se passa desde o resultado positivo, passando pela gravidez até o pós-parto fazem mesmo isso (que pode ou não ser depressão pós-parto) com parte das mulheres. Tem mulher que reage de outro jeito, com pânico de ficar só com o bebê e querendo estar cercada de gente para ajudá-la e ensinar a ela como fazer. Sem julgamento. Cada um, cada um. Eu fiquei com vontade de fazer tudo por mim mesma.

 Mas quem disse que a sociedade admite uma mãe inexperiente (ainda que ela tenha cuidado de todas as suas bonecas e irmãos mais novos) a descobrir na prática como é que se cuida de um bebê? Não, a gente não admite. O bebê é patrimônio da humanidade, ele não pertence à mãe, nem quando está na barriga. O bebê é coletivo e a coletividade, sentinela, toma conta do que deve ser feito, cuida para que nada saia errado, zela pela preservação da espécie. Bonito isso, mas bem difícil de aguentar. Eu queria ser minha parte animal, mas ninguem deixava. Em nome da transmissão do legado, do respeito pelas mais velhas e experientes e do medo que eu supostamente devia ter diante do que eu hipoteticamente desconhecia completamente, eu era coagida a ouvir e a agir de acordo com o que escutava. Uma cobrança sem fim.

 Deixar de ouvir conselhos e querer fazer por mim mesma soou pra muita gente como um grande desrespeito a todo o matriarcado. Como assim eu ia me meter a besta? Presunçosa, egoísta, orgulhosa, louca. Me meti a besta sim e tive de seguir sozinha até o fim (já que ninguém queria ajudar se não fosse pra bancar o mestre conselheiro sabe tudo). Tem gente que nunca mais me amou como antes, paciência. Realmente achei que quem estava passando por um maremoto hormonal e psíquico em função de todas as mudanças do pós-parto tinha mais necessidade de compreensão que todos os outros seres do planeta e, na impossibilidade de ser compreendida em minhas escolhas, escolhi não precisar de ninguém. Cada um sabe a solidão que é capaz de suportar. E eis que aqui estamos vivos e felizes obrigada, a despeito de todas as pragas rogadas. Sobrevivi e aprendi muito sobre mim e sobre os outros. Até já virei mãe pitaqueira. Acontece. Com todas.

 No fundo, ao observar a “aflição” das pessoas (invariavelmente mulheres) em querer “ajudar” com o meu bebê, aprendi que todas as mulheres são meio macacas. Observem. As mulheres, eu inclusive, surtam ao escutarem um choro de bebê, de qualquer um. Um bebê chora: todas as mulheres enlouquecem ao redor querendo fazê-lo parar de chorar, uma reação meio visceral até. Começa o “não é fome?”, “não é sono?”, “ele não tá com cólica?”, “ele só pode estar com calor, tira a blusa!”, “é sede”, “você trocou a fralda?”… E fica isso até se tentar de tudo ou até o bebê parar de chorar e começar os “viu, eu não falei?”, “olha, da próxima vez…”, “é assim mesmo, o meu filho…” E isso a cada choro. Cerque-se uma mãe com um bebê de dez mulheres para “ajudar” e esta conhecerá o inferno na Terra. Ajuda é muito bom quando não atrapalha, quando não mina no “ajudado” a auto-estima e a confiança na própria capacidade, quando não invade o espaço. Somos macacos socializados e esperar o outro pedir ajuda é um grande sinal de humanidade. Acho que somos muito mais animais do que pensamos, muito mais, mas gostamos de nos comportar as vezes como gente, então, sejamos coerentes.

 Ainda não descobri como se faz para equilibrar as coisas. Como não se deixar levar ao limite da irritação com os pitacos, como não deixar de ser generosa com a vontade das outras de mostrar conhecimento e de no fundo, no fundo querer mesmo é cuidar um pouco do bebê. Ajudaria bastante se as macacas de plantão também começassem a expressar vontade de cuidar um pouco do bebê com “estou com vontade de cuidar um pouco do bebê” ao invés de “deixa eu te mostrar como é que faz”. Cada um sabe a “inteligência emocional” que tem. Ou que não tem.

 Escutei outro dia um negócio que diz que o choro do bebê irrita a mãe MAIS DO QUE A QUALQUER OUTRA PESSOA e que isso é um mecanismo da espécie para que ela, a mãe, atenda logo as necessidades da cria. Isso deve ser sinal de que quem tem que “assumir a bucha” é a mãe mesmo. Mas se todas as outras mulheres também se afetam tanto com o choro do bebê isto pode ser sinal de que nossa espécie tem uma inteligência também no sentido de que todas as mulheres devam estar de plantão caso a mãe não consiga atender o bebê. Hum… Preciso ir para a África observar os primatas, talvez eles me deem todas as respostas que não estou conseguindo encontrar observando os homens. Mas se as vezes as mulheres se comportam como gatas, de nada me adiantaria entender só os primatas… Especiezinha complicada essa tal de espécie humana… animais não ouvem nem dão conselhos, nem ficam horas pensando sobre o significado oculto dos conselhos. Será que banquei a gata por uma necessidade inconsciente de deixar de ser humana? Ah vá! Só mesmo um humano pra perder tempo pensando uma coisa dessas… Os gatos é que são felizes.

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O trabalho Os gatos é que são felizes de Elba Oliveira foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

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Links interessantes para continuar pensando sobre o assunto:

Eu lá no mamatraca dando conselho…

Sobre depressão pós-parto…

http://guiadobebe.uol.com.br/depressao-pos-parto/

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Elba Oliveira é mãe do Rafael e do Joaquim, nas horas vagas trabalha com o que gosta: Coaching, Maternagem e Empreendedorismo. Gosta do novo, do feito, da força e da brisa que sente no pico mais alto de cada montanha. Leva os bacuris onde vai.

Elba Oliveira

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5 Comentários

  • Responder
    Regina Trigo
    22 de dezembro de 2011

    Elba, amei seu texto!

    Sabe que eu tive a sorte de ouvir do meu Obstetra assim que tive alta do hospital: -”Regina, sua vida agora irá mudar muito, será uma overdose de conselhos e mitos, feche-se em seu instinto e faça o que seu corpo, cabeça e coração mandar”, são palavras que nunca esqueci.

    Também ganhei um livro de uma amiga e psicóloga, quando ainda estava grávida, chamado “Os Bebês e Suas Mães, D. W. Winnicott ” que diz assim: “Uma mãe não pode aprender nos livros, com enfermeiros ou com médicos a fazer o que lhe cabe fazer… a esses pessoas cabem fortalecer a confiança da mãe em si mesma, em sua capacidade de perceber o seu bebê… de usar o seu instinto…. esses especialistas devem aprender com a mãe, ao invés de tentar ensiná-las”

    grande beijo e obrigada por compartilhar seu texto.
    Regina

    • Responder
      23 de dezembro de 2011

      Puxa que alegria sua visita Re e que bom que se identificou no texto. Vou procurar o livro, adoro ler sobre maternidade, tenho um que se chama psicologia da gravidez da Maria Tereza Maldonado que é também muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom, explica em profundidade os sentimentos (“bons” e “ruins”) da gravidez.
      Obrigada voce pela visita!
      bjs

  • Responder
    Telma Carolina
    23 de dezembro de 2011

    Quando minha filha nasceu, minha vida estava um caos: marido e minha mãe brigados, ela não estava lá na hora do parto, fiz tudo sozinha. Os conselhos que ouvia em família eram: você não teve parto normal. Você não vai amamentar, nem insista.

    Eu era a mãe criança (primeiro filho) e a mãe sem mãe. Só não fui a mãe prostrada. Virei e sou uma leoa pelaminha filha.

    Aos 22 dias, o leite secou completamente, minha filha chorava, eu chorava, foi terrível. Comecei tomar equilid. Virei uma vaca. Muito leite, muito grande!!!

    Minha saída foi fazer apenas e tão somente “o certo”. Seguir um roteiro. Não tomou vacinas? Não vamos sair de casa. Não fez dois anos?Não pode comer uma porção de coisas. Leite materno? Até 2,5 anos. Há quem me chame de neurótica, mas não foi sofrido para ninguém. Pelo contrário: a disciplina nos deu noites tranquilas (commenos de um mes ela dormia 8 horas seguidas) e uma relação maravilhosa.

    Virei dessas mães que se baseiam em livros. Criando Meninas me abriu um novo universo. Me apaixonei pela temática da feminilidade. Fui ler Clarissa Pínkola e tudo o mais que caia na minha mão.

    Hoje, não tenho outra palavra além de lamentável. É lamentável que tenhamos perdido tanto da nossa essência, da cumplicidade e companheirismo. As mulheres, se juntas, possuem um poder curativo insuperável. Mas disputamos, competimos, desconfiamos…Enfim, cedemos ao mundo masculino. Há quem diga que a copmpetição entre mulheres é inerente. Não é!!!

    Para minha sorte, Deus, o universo, o acaso, me cercaram de amigas da minha idade. Com alguns passinhos de experiência a mais que eu e muito amor. Nunca vi o carinho, os palpites como críticas.

    Uma delas, em especial, eu nunca terei como retribuir. Era para ela que eu ligava na hora do aperto. Quando a vacina da Piccolina inflamou, não sabia que era normal; passava alcool 70% no bracinho da coitada. Liguei aos prantos para a amiga….Se ela me deu conselhos ruins? Nunca. Apenas dispensáveis, aliás, dispensei. Dizia, por exemplo,para salgar bastante a papinha, porque legumes são adocicados e tem que diferenciar o paladar para almoço e sobremesa. Para mim, não serviu…

    Por veze vejo mães crianças por aí, reclamando, se lamentando e eu vou lá, tento acolher, tento retribuir ao mundo a minha sorte. Porém, com minha brutalidade, somada ao hábito da disputa, algumas veem como crítica, intromissão. É uma pena para nós todas. Um mundo mais feminino seria mais pacífico. Já derramamos sangue todos os meses e depois damos o sangue pelos filhos. Não faríamos guerra,não é mesmo?

    Enfim, já disse várias vezes: sem solidáriedade, todas as nossas conquistas, toda a revolução feminista serão fardos.

  • Responder
    23 de janeiro de 2012

    Eu acho que tive a sorte de não receber muitos palpites inúteis. Aliás, acho que até os recebo, mas aprendi a ignorar, no começo fingia que ouvia ou explicava o porquê não o atendia. Mas eles começaram a se repetir e a me irritar, agora, para vários só fico quieta. Alguns, se eu acho razoáveis e vão de encontro ao que meu coração diz, eu aceito e aplico.
    Acho que temos que aprender a apoiar as mães, sinto muita falta da rede de apoio feminina, não quero ninguém me ajudando com a cria, isso eu dou conta, obrigada. O que eu queria era gente apoiando a mim mesma, emocionalmente e talvez com a casa – isso mais nos primeiros dias, agora já tá mais tranquilo.
    O choro do bebê é incômodo demais para mulheres pela sobrevivência da espécie mesmo, eu acho. Há quem diga que é o barulho mais estressante para um ser humano.
    Bom, vim aqui agradecer seu comentário no Depois de Benjamin e aproveitei para ler seu texto, muito bom! Beijos

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