Muitas vezes sou bombardeada por textos sobre machismo e críticas aos homens. E costumo ficar quieta.
Eu poderia pegar o bonde e endossar o coro, ou poderia falar do quanto sofri com o machismo por parte das mulheres, sim das mulheres, mãe, amigas, professoras, mas mulheres machistas acredito que todo mundo conhece, quase todos nós homens ou mulheres fomos criados, cuidados e educados por mulheres imersas em suas idéias machistas, sim as mães, mas não que seja culpa delas, apenas reproduzem o que aprenderam com suas próprias mães e avós, tataravós e por aí vai, mulheres que sofriam com a sociedade machista e reproduziam dentro de suas próprias casas.

Mas eu decidi falar de outro ponto de vista, do quanto meu pai era feminista (sei que algumas feministas vão me achincalhar por isso, pois homem não combina com feminismo, me perdoem ainda estou dentro das minhas próprias caixinhas) e ele nem sabia, talvez ainda não saiba. Claro que sendo criado por uma Mãe machista ele também reproduz muitas de suas atitudes.
Mas porque enxerguei  isso nele?
Porque quando vejo sobre como as meninas foram criadas para ser isso ou aquilo vejo que meu pai me incentivava a ser o que quiser, desde construir casas, prédios ou pontes, estudar as rochas ou a psicologia humana, não importava o que fosse se fosse o que eu queria.
Porque ele me incentivava a falar, falar, falar de mim mesma e dos meus sentimentos, sim ele me escutava e fazia o contraponto falando, falando, chorando de suas dores e emoções, compartilhando comigo. Foi difícil encontrar um homem a altura porque achava que os homens gostavam de conversar e falar sobre sentimentos, poesias e tudo o mais.
Porque ele abria o capô do carro e me respondia o que era cada peça e o que ela fazia, como mecânico ele fazia isso muitas vezes. E não é porque ele não tinha filhos homens, aliás tem três.
Deixava me embrenhar debaixo dos carros, me sujar de graxa, pra ver o que ele estava fazendo e nenhum momento me disse que eu precisava de uma vestimenta correta pra isso.
Deixava eu pisar no acelerador pra que ele pudesse testar os seus concertos.
Me deixava brincar com os itens de marcenaria do meu avô, me ensinando a limar, lixar, serrar, pregar sem me machucar.
Dividia seu rádio comigo numa época que só havia um único radio em casa, eu podia escolher a radio que quisesse mas eu gostava de ouvir seu gosto musical.
Deixava que eu ajudasse nas pinturas, muitas vezes já na adolescência me encarregando delas, pintar janelas, portas e paredes.
Me ensinou usar a enxada, uma foice ou um cortador de grama que ele mesmo inventou.
Podia peneirar areia, brincar com pedras, construir estradas, brincar de carrinhos e cidades.
Podia ajudá-lo na horta, ou subir em árvores, vender suas hortaliças ou ajudá-lo com o cimento ao assentar os blocos da piscina tão sonhada por nós.
Andar de skate ou carrinho de rolimã, empinar pipa ou jogar bola. Claro que brincava de boneca e de casinha, mas também de pular corda, jogar peteca, construir aviões ou túneis no quintal.
Convidava pra subir com ele no telhado e ver como eram as posições das telhas, como os fios elétricos e encanamentos funcionavam no sótão, como ele curtia as peles dos coelhos que ele criava ou apenas pra deitar e olhar o céu brincando de encontrar figuras nas nuvens.
Me ensinava criar os animais e como matá-los com cuidado e delicadeza para que não sofressem, apenas porque não tínhamos dinheiro e nosso alimento era escasso, depois que a situação financeira melhorou nunca mais o vi matando um animal, hoje suas crias morrem de velhice e ele continua a criar e alimentar.
Me ensinou a desenhar e contava histórias do seu trabalho, como dinamitar ou gerenciar uma pedreira, como se construía as estradas e rodovias e que cidades ele percorria.
Com ele eu sempre podia colocar minhas ideias em prática. Foi a primeira pessoa que trocou e-mails comigo, aprendemos a usar a internet e computadores no mesmo tempo.
Nunca recriminou minha roupa ou meu modo de vestir, sempre elogiando que eu estava bonita, mesmo quando eu mesma sabia que não estava, tipo quando raspei meu cabelo, ou estava com roupas largadas, ou quando sabia que podia tê-lo deixado chateado com minhas tatuagens e piercings.
Podia usar mini saia, calça apertada, barriga aparecendo, brincos grandes, maquiagem exagerada, cabelos de qualquer cor e comprimento e em nenhum momento ele fez algum tipo de comentário como os que minha mãe fez tantas vezes!
Também podia usar suas roupas na adolescência, ele sempre achava que eu ficava bem com suas camisas.
Eu podia escutar qualquer tipo de música, ler qualquer tipo de livro, falar sobre qualquer assunto, se estivesse com ele eu sempre estava bem.
De todas as filhas eu fui a que demorei mais pra ter um namorado sério e casar. Ele nunca demonstrou que se preocupava com isso, nem me cobrava casar e ter filhos.
Muitas vezes ele era o único que acreditava em mim, quando todos duvidavam, ele apostava em mim.
Eu podia beber bebidas alcoólicas sem ser recriminada por isso.
Ele me incentivava a aprender a dirigir, ter uma profissão, trabalhar no que eu quisesse e ganhar meu próprio dinheiro, das quatro filhas eu não sou a única que desenvolvi uma carreira, melhor várias pois essa liberdade me fez ver que eu podia mudar de profissão ou ter mais de uma. Mas sou a única interessada em estudar e fazer uma graduação universitária. Porque só eu? Porque me apeguei e me aproximei mais dele e não da minha mãe como as outras três.
E muitas, inúmeras vezes ele me defendia dos conceitos machistas da minha mãe.  Eu ficava sem entender muita coisa, achava que minha mãe era assim por conta da religião.
Já adulta podia sair pra onde quisesse e voltar a hora que quisesse desde que eu avisasse onde estava e que horas voltaria.
Poderia citar inúmeras situações mas eu nunca percebi o quão foi importante pra mim e como ele era diferente. Somente agora pude perceber que ele não fazia nenhuma distinção que se baseasse no meu sexo feminino. E que minha vida teria sido bem melhor se ele não tivesse que trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana e não sofresse com as angústias que sua infância deixou nele.
Ficou óbvio pra mim que fiz uma escolha, aceitar meu pai alcoólatra e não me afastar dele, não excluí-lo ou evitá-lo me deu inúmeros presentes que talvez nenhum dos meus irmãos tenham recebido.
Me fez ser uma mulher independente que acredita em si mesma e  não perceba muitos obstáculos.
E não acredito que ele tinha grandes ideais, de ser um pai diferente, que se preocupava em me emponderar.  Ele apenas me deu amor, um amor belo e profundo que ultrapassava qualquer conceito pré concebido de como eu deveria ser ou me comportar.
E engraçado que mesmo sem conviver comigo no dia a dia ele me diz ter certeza que sou uma boa esposa e uma boa mãe, porque sou boa em tudo que faço.
Porque todo esse textão?
Pra dizer que se todas as meninas tiverem alguém muito próximo que a ame muito e que diga sempre olhando nos seus olhos que ela pode ser o que quiser ser e que a ensine fazer todo tipo de coisas e atividades, teremos um mundo diferente no futuro, não importa se essa pessoa é um homem ou uma mulher, no meu caso foi meu pai e aprendi com ele tantas coisas na infância que só adulta descobri que certas coisas que eu fazia a sociedade considerava não ser coisa de menina.
Que bom que eu tenho esse homem na minha vida, pois hoje posso educar meninos diferentes para um futuro mais respeitoso e amoroso com todos, homens e mulheres.
Ps: foi muito difícil pra mim compartilhar isso, pois não queria falar da minha mãe. Olho pra ela com amor, compaixão e empatia sabendo que muitas vezes ela só estava reproduzindo o que alguém um dia lhe disse ser o correto. Hoje ela é uma mulher mil vezes melhor do que já foi, saindo de inúmeras caixas onde foi colocada. Ela não tem culpa de ser o que é, aliás nenhum de nós mulheres ou homens temos culpa de sermos o que somos e reproduzirmos conceitos retrógrados, obedecemos em nossa Alma forças e lealdade invisíveis. Mas se esse meu textão servir pra te abrir a consciência e ser uma pessoa melhor se despindo de conceitos pré concebidos, se isso te fizer ser um pai ou uma mãe melhor, valeu a pena!

image1Maria Arminda Kacinskas 

Terapeuta de Alinhamento Energético, Constelações Familiares e Pensamento Sistêmico, Reiki e Reflexologia, mãe de dois, com mais uma a caminho, consultora de cosméticos, artista e escritora nas horas vagas.
Membro do grupo  O Cubo  - Grupo de terapias quânticas e sistêmicas, SP-SJC
Coordenadora de Eventos terapêuticos na Clínica Espelho Mágico, onde realizo workshops de Constelações Dinâmicas e atendimentos individuais.
Onde me encontrar?
Curta essa artigo:
Curta a página do Conversas ao Meio Dia!

Colaboradores do Conversas ao Meio-Dia. Para enviar um texto pra gente, mande email para conversasaomeiodia@gmail.com ou deixe um recado na nossa Fan-Page no Facebook. Publicaremos sempre que o material estiver de acordo com nossas diretrizes editoriais.

Colaborador do Conversas

Comentários

comentários

Sem comentários

Conversas ao Meio dia - 2014 | Todos os direitos reservados!
Tema Reportage | Layout por Eluanda Andrade & Desenvolvido por RobertaRezende

Hit Counter provided by orange county plumbing