underwater-fish menor

Aprendi a brincar com o Rafael quando ele tinha 4 anos. Foi no chuveiro de casa num banho junto. Nós dois ali espremidos no box pequeno, eu com uma barriga de quase dez meses de gestação.

Tinha passado uns bons meses negando banho junto com ele com medo de levar uma cabeçada no ventre. Mas, de repente, me deu saudade.

Seria aquela a última brincadeira só nós antes do bebê?

E entrei na caixa de vidro fazendo esforço pra não esmagar o menino contra a parede sem notar.

Levei pra ele uma escova de dente minha com pasta de adulto pro banho ser diferente e, assim que ele colocou o troço na boca me vendo escovar os meus, nos transformamos em mergulhadores com snorkels. Idéia dele, claro.

Mergulha mãe!
- Que?
Pega seu snorkel!
- Ah!
E fiz chuá.
De novo!

E me abaixei sem me certificar de que caberia ali.

Num passe de mágica.

Vamos salvar os animais, eles estão em perigo! Veja um baleia! Vamos levá-la! Não, não tire seu snorkel da boca mamãe! Me ajude está pesada! Vamos, vamos levá-la! (ele sempre pronuncia os verbos corretamente quando brinca que é adulto)

E fiz uma força descomunal para arrastar aquela baleia naquele box  (que a esta altura já tinha pelo menos triplicado de tamanho).

- Veja um golfinho! Precisa de nós! , eu disse. E o olho do menino brilhou.

Sim, está com a nadadeira machucada, vamos levá-lo! Ali! Vamos colocá-lo no laboratório! Tic!

- No barco, né filho?

Não, no prédio do laboratório.

- Mas prédio no mar?

É,  prédio mãe.

- Tem que ser num barco pra levar pro  laboratório.

Não mãe, aqui no prédio. Neste apartamento. (apontando o terceiro azulejo à esquerda do box)

E eu tic!

Não mãe! Deixa que EUUUUUUUUUU coloco!!!

- Ok, posso colocar aquele cavalo-marinho?

Sim vamos pegá-lo!

E tic.

Não mãe, não tire seu snorkel! Vamos pegar aquela estrela-do-mar!

- Agora o polvo! Tic.

O Tubarão. Tic.

- O caranguejo!

O macaco!

- Mas vem cá, macaco no mar?

Sim, eles precisam de nós!

Desta vez não questionei mais. Pra que?

Mais gavetas!

(os apartamento viraram gavetas – as crianças tem essa facilidade)

- Ali o leão! O elefante! Um de cada vez! Primeiro o leão senão ele foge, é mais rápido!

E brinquei. BRINQUEI.
Tirei todos os bichos de que me lembrei o nome junto com o pequeno daquele mar de box. Nadei. Me senti herói. Esqueci que estava num banheiro. Que estava grávida. Que havia vida fora do vidro.

Foi de longe a brincadeira mais legal que brinquei em toda a minha vida (inclusive as minhas de quando era pequena) e o meu filho estava feliz como acho que eu nunca havia visto, olhado.

Foi a primeira vez que entrei no mundo dele. E era muito mais legal que o meu.

Não sei precisar quanto tempo passou, mas quando ficamos realmente cansados de resgatar bichos, já que alguns eram bem pesados, decidimos desligar o chuveiro para nos dar talvez o abraço mais cúmplice que já havia sido dado no mundo (no nosso mundo certamente). E vi que estava diante do maior ensinamento que a vida podia me dar naquele instante.

Meu filho era um cara incrível e eu poderia ser uma mãe muito mais legal e muito mais feliz.
Doeu pensar no tempo perdido. E no tempo que viria sem o “só nós”.

Rolaram lágrimas disfarçadas. Fazer o quê?

Recobrada a cara de mãe (sem, no entanto, conseguir disfarçar a lambada da vida), agradeci. Disse a ele  que ele sabia inventar as melhores brincadeiras do universo inteiro  e que era pra brincarmos mais vezes.

Ele me sorriu de volta orgulhoso e feliz não só por ele, mas por nós.(juro que vi isso claramente nos seus pequenos olhinhos molhados).

Legais esses snorkels, né mãe?

Sim, filho. Muito legais.

E pensar que seriam usados para escovar os dentes. Tolice.

Mas filho ensina.

E mãe, aprende.

Obrigada Rafael, pela sua imensa paciência em esperar que eu me torne a mãe que você merece. Obrigada por todas. As que você já me ensinou e as que você ainda vai me ensinar.

Filho é de matar, né gente?

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Elba Oliveira é mãe do Rafael e do Joaquim, nas horas vagas trabalha com o que gosta: Coaching, Maternagem e Empreendedorismo. Gosta do novo, do feito, da força e da brisa que sente no pico mais alto de cada montanha. Leva os bacuris onde vai.

Elba Oliveira

Comentários

comentários

6 Comentários

  • Responder
    8 de agosto de 2014

    Adorei!

  • Responder
    8 de agosto de 2014

    Amei! Ter filho é o máximo mesmo. Eles são nossos mestres.

  • Responder
    8 de agosto de 2014

    Pronto. Chorei. Quando se tem mais de um filho, o sentimento é esse mesmo: o só nós dois vai deixar de existir.

  • Responder
    9 de agosto de 2014

    Lindo!!!! Seus textos me trazem tantas lembranças… Como tudo é tão parecido em qualquer época qdo se trata de mãe e filho…realmente, filho é de matar…de tanto amor!!!

  • Responder
    9 de agosto de 2014

    Brinquei tanto, tanto com meus filhos qdo pequenos….e também houve este momento do só nós dois está acabando, abracei-o e chorei muito… meu pequeno filho tinha só dois anos e já viria outro, programadíssimo!!!! Eu tinha só 21 anos.

  • Responder
    Adriane Cabrera
    9 de agosto de 2014

    Chorei litros…q lindo!

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